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Entrevistas

Entrevista com Cachorro Grande

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Publicada em 02, Jul, 2009 por Anderson Oliveira


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A Cachorro Grande lança seu novo álbum, Cinema, um álbum cheio de novos elementos e com muito rock and roll, confira agora uma entrevista que o Musicão realizou com a banda, que fala do novo lançamento, entre outros temas.

Musicão: Sobre o novo álbum da banda, Cinema, vocês fizeram um álbum mais experimental, cheio de elementos atípicos e que evocam suas influências, tudo isso em um período curto de produção, como foi tudo isso?

Marcelo Gross: Foi curto sim, do período que a gente gravou até o fim foram 20 dias, uma das diferenças foi que quando a gente ia compondo a música a gente já gravava com todos os overdubs, ao passo que nos discos anteriores nós reuníamos todos, tocava tudo como se fosse uma banda ao vivo em um estúdio pra depois colorir, pra ver direitinho o que ia ser colocado. Nesse disco a gente já foi meio que preparando ele, então já sabíamos que elementos íamos colocando, foi tudo de uma forma mais objetiva, já fizemos tudo sabendo o jeito que a gente queria e isso fez uma grande diferença.

Musicão: A produção do álbum foi de Rafael Ramos, que já trabalhou com grandes nomes do rock nacional, inclusive com a Cachorro Grande nos dois últimos álbuns, pelo fato do disco ter mais elementos, houve algum processo diferente dos anteriores?

Beto Bruno: Na verdade o que acontece é que a gente fica cada vez mais seguro com ele, gravamos o primeiro e gostamos, resolvemos fazer o segundo, então a coisa tava dando certo, ele estava com a gente na procura desse som, ao contrário do outro álbum, que foi masterizado no estúdio Abbey Road, esse foi feito aqui mesmo e por incrível que pareça a gente gostou mais dos que foram feitos aqui (risos) É até estranho falar disso, na época que fizemos o disco em Abbey Road a gente achava isso um sonho, mas os outros dois feitos aqui eu gosto mais, talvez pelo fato de que podemos acompanhar tudo, mas existe uma diferença incrível entre aqui e lá, por exemplo, lá as bandas de rock não abrem mão de gravar com equipamento analógico, fora toda parte técnica, de timbres, volumes... uma coisa que é interessante é como as bandas no Brasil gravam, elas transformam tudo em pop porque gravam com a voz muito alta, talvez pra se tornarem radiofônicas, sempre a voz vem muito mais alto, é incrível!

Musicão: Desde o início da careira vocês conseguiram se isentar de vários rótulos, sempre foram consideradas puramente uma banda de rock, o que possibilitou atingir diversos públicos e não gerar expectativas diferentes, nesse álbum vocês mantém a marca registrada da banda e agregam novos elementos, foi um caminho pensado desde o início essa simplicidade da banda e a busca por novos elementos?

Marcelo Gross: Cara, em primeiro obrigado, somos uma banda que sempre foi calcada no rock dos anos 60, 70, sempre vivemos com aquela trinca básica que é The Who, Beatles e Stones, e você que essa também foi uma realidade dos Beatles, de buscar uma evolução no som, experimentar coisas novas, sempre fazer alguma coisa diferente do disco anterior.

Beto Bruno: É que nem os Mutantes, é engraçado que tu pega de um disco pro outro e parece outra banda, a gente se distanciou do anterior com o novo álbum, assim como do primeiro para o segundo ou pro terceiro, mas não tanto como aconteceu agora. A gente acha que nesse álbum nós conseguimos distinguir mais uma música da outra baseada no estilo que ela pedia, pra ser mais direcionada pelo que ela pedia, uma hora uma balada no estilo Neil Young, outra num estilo mais Led Zeppelin, que é uma coisa mais pesada, a gente botava a banda pra tocar junto no estúdio pra pegar aquela coisa mais visceral, com uma bateria mais estourada, uma guitarra mais agressiva, e nisso o Rafael (produtor) ajudou bastante, pra dar esse direcionamento das músicas do jeito que a gente queria.

Musicão: O título do álbum, “Cinema”, foi escolhido pelo fato da banda ter feito um trabalho de sonoplastia maior, com muitos experimentos, essa foi a parte mais complicada da produção do álbum?

Beto Bruno: Por incrível que pareça, foi a mais fácil, a gente chegou no último dia de ensaios e foi toda uma viagem, perguntamos pro Rafael “que barulhos tu tem aí?” (risos)

Marcelo Gross: Perguntamos se tinha sino, tinha moto, tinha vento, tem qualquer coisa, até pensou que era brincadeira, aí começamos a botar um monte de coisa, a viajar nisso, e a coisa foi ficando grande, foi quando percebemos que estávamos trabalhando com sonoplastia, daí tinha que ser esse nome, as faixas se unem, ficou bem legal.

Musicão: Existe uma faixa no álbum chamada “Eileen”, ela tem referência com o clássico do Dexys Midnight Runners “Come On Eileen”?

Beto Bruno: Cara, mais uma pessoa falando isso pra gente, eu sei que existe uma “Eileen” em um disco solo do Keith Richards, no segundo solo dele, tem um dos Kings of Leon e essa que tu falou. Sabe por que o nome da música é “Eileen”? Era porque eu cantava e quando chegava numas notas eu falava “eiiii leeeeeen, eiiii leeeeeen” igual o Keith Richards faz na música dele (risos)

Marcelo Gross: O Beto fez a música e com isso a gente teve certeza que tinha que ser a letra sobre uma mulher, uma relação e tal.

Beto Bruno: E é uma das faixas que eu acho que canto mais bonito, fico até emocionando com o resultado dela, jamais imaginava que eu cantava daquele jeito, nunca mais consegui cantar igual aquele momento, é um momento bem sentimental mesmo.

Musicão: Quando a Cachorro Grande surgiu com tudo para o público, vocês considerados uma nova virada na música nacional, a banda foi criada na mesma época em que os Strokes surgiram para o mundo, de alguma forma aquele momento influenciou no som de vocês ou gera alguma expectativa?

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Beto Bruno: Cara, que pergunta boa, muito bom falar disso, esse é o nosso público, um público da nossa idade também, é um povo que há dez anos atrás já tava ligado nas mudanças da música, acompanharam a gente, achou a gente distinto de outras bandas, assim com o Strokes trouxe algo novo, eles são diferentes do Hives, do Kings of Leon, e foi isso que as pessoas viram, uma banda nova que traz algo novo.

Marcelo Gross: É engraçado, quando a gente chegou em São Paulo todo mundo já falava de Strokes, a gente veio chegar um ano depois mais ou menos, aí viram a gente com umas roupas estranhas, um cabelos estranhos, apareceu alguma comparação, mas logo o pessoal viu que tinha algo novo, que vinha de outra linha, coisa do Velvet, do Lou Reed, aquela coisa mais agressiva como o The Who.

Beto Bruno: Eu sou um grande fã do Strokes, sou super viciado no som deles, mas se tu perguntar se eu me sinto influenciado por eles eu vou te dizer que não, a gente gosta e tudo, mas começou a ouvir bem depois de ter formado a banda.

Musicão: Vocês acabaram sendo divulgados aqui em São Paulo depois daquela apresentação no programa da TV Cultura, o Bem Brasil, já foi bem depois dos Strokes, aquilo foi importante pra vocês?

Beto Bruno: Nossa, foi no show com o Engenheiros certo? Aquele show foi nossa fase mais MOD, foi bem legal, foi um dos primeiros, naquela época nós fizemos também o programa Musikaos do Gastão Moreira.

Marcelo Gross: Foi legal fazer tudo isso, éramos uma banda independente e ainda era o início dessa coisa toda de internet, ainda estava no início aquela coisa da molecada sair procurando banda na internet como é hoje.

Musicão: O fato de terem sido uma banda independente foi um ponto que hoje vocês vêm como fundamental para valorizar até o próprio trabalho e traçar rumos?

Marcelo Gross: Claro, claro, é claro que gostaríamos que as coisas tivessem sido mais fáceis desde o início, porque a gente nunca ia deixar de fazer esse rock doidão baseado nos 60. O início foi bastante difícil sim, o primeiro disco independente, o segundo ninguém queria lançar, aí o Lobão foi lá e deu uma socorrida, só depois que a coisa acabou andando mais fácil, a gente aprendeu bastante com isso.

Beto Bruno: Se tu ver hoje em dia, não tem tantas bandas assim, se procurar bandas que saíram do underground e conseguiram lançar disco por uma gravadora e se manter na gravadora. Existem várias bandas que vieram de baixo, mas, por exemplo, a Pitty já tem o primeiro disco por uma gravadora, e tem aquele outro caso... de bandas que fazem o primeiro show abrindo pro Red Hot Chilli Peppers (risos) Tem banda que tem que começar tocando em todos os bares de Porto Alegre e Curitiba pra depois ter algo maior, esse é o nosso caso, até por isso a gente aprende muita coisa de palco, já tocou desde aquele palquinho até algo de festival, isso fez com que a gente sempre crescesse um pouquinho mais, e sempre ficamos naquela ansiedade, poxa, e já a gente já tem uma carreira, e demorou tanto pra subir, hoje a gente não se sente confortável, é um trabalho constante, você cria uma base sólida, que são os fãs, a cada disco, a cada show, você vê gente nova te vendo, estamos tocando em mais lugares, lugares maiores. Às vezes dá aquele estranhamento no disco e a gente fica receoso, aí passam dois, três meses e todo mundo canta as músicas no show, isso dá uma tranqüilidade, mas é uma preocupação constante em trabalhar bem. A gente poderia estar apostando na filosofia “time ganhando não se troca”, tipo Ramones, mas acho que estaríamos sendo cômodos demais, a gente não seria sincero com nós e muito menos com nosso público.

Musicão: No ano passado vocês participaram do DVD MTV Bandas Gaúchas e no segundo semestre planejaram a gravação do primeiro DVD da banda, que acabou sendo adiado em virtude da gravação do novo álbum, já podemos dizer que esse é o próximo passo da Cachorro Grande?

Beto Bruno: Eu creio que sim, a gente já queria ter feito, mas os formatos de discos ao vivo da atualidade normalmente tem 3 inéditas, que acaba ajudando a promoção do disco, o Rafael ligou e perguntou se a gente tinha essas 3 músicas, pediu pra mandar pra ele, aí a gente mandou umas 20 (risos) Aí ele parou e falou que as músicas estavam ótimas e que tinham cara pra um disco, aí achou melhor produzir primeiro algo novo, e de certa forma era tudo o que eu queria ouvir também (risos).

Marcelo Gross: Também tem aquela coisa de que, de repente, não era o momento certo pra gente lançar o DVD, tínhamos músicas incríveis na mão e poderíamos deixar a maioria de lado, até porque a turnê de divulgação de um disco ao vivo envolve outras coisas, não ia dar tanta ênfase pras músicas novas, passaríamos aí muito tempo sem lançar nada, a gente quer fazer as coisas com carinho, pra dar valor, então tem o seu momento, sua dedicação.

Beto Bruno: Nós temos uma regularidade legal para lançar discos, 2 em 2 anos, normalmente tem banda que tira férias, vai pra estúdio e passa meses compondo, a gente já faz isso na estrada (risos).

Musicão: A banda pegou todo um momento de ebulição na música, inclusive pelo fator da internet, vocês usam vários canais como website, flickr, twitter... Qual a opinião de vocês sobre a internet, o download de músicas e essa interação com o público?

Beto Bruno: Eu acho tudo isso um barato cara, porque meio que colocou as coisas no lugar.

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Marcelo Gross: A gente costuma dizer que nascemos em uma época onde a galera não compra mais discos, mas ao mesmo tempo está todo mundo no show cantando todas as músicas em função de ter a possibilidade de baixar da internet, então acho que é uma ferramenta que aproxima o artista do fã. A gente como banda nova usou muito o artifício da internet, de divulgar tudo da forma mais ampla possível, foi como complemento, e eu acho que é muito bacana tu poder ter acesso ali às coisas na internet, ter contato, se comunicar com os fãs.

Beto Bruno: É legal porque são gente como nós, são fãs como nós, então assunto nunca vai faltar, isso é bem legal.

Musicão: Vocês fizeram um programa com a MTV procurando bandas pelo Brasil, como foi fazer isso?

Beto Bruno: Cara, foi do c***, a gente ficou 20 dias na estrada assistindo bandas, chegava na cidade, conhecendo gente legal, vendo gente legal, 20 dias sem falar em Cachorro Grande, foi praticamente umas férias improvisadas, uma viagem beatnik.

Marcelo Gross: Era muito legal, de vez em quando a gente entrava o carro e ia pegava a estrada meio sem destino, igual no filme Easy Rider (risos).

Beto Bruno: E tem aquela diferença também, quando o show é nosso tem aquela preparação, coisa de horário e tudo, temos que se cuidar um pouco mais pra ficar bem, nesse caso a gente podia curtir, beber a vontade, foi muito legal.

Musicão: Para o programa foram 20 dias, mas como vocês vêem hoje, de um modo geral, o cenário de rock nacional?

Marcelo Gross: Existe uma cena legal, mas o problema é o pessoal ir lá e fazer, é bem diferente da década de 80, quando rolava um lance maior de atitude, de letras, o pessoal era muito mais ativo nesse aspecto, hoje vivemos a época do “politicamente correto”, então é tudo meio “xonho”.

Beto Bruno: E na década de 80 as bandas se juntavam porque eram 5 caras que amavam coisas e comum, tinham coisas pra dizer, aprendiam a tocar junto e tal. Hoje eu vejo as bandas se preocupando primeiro com as roupinhas, com o dinheiro, com a fama e quando vai sair no jornal pra só depois ir lá aprender a tocar, primeiro deixa o cabelo crescer e depois vai aprender a tocar. Musicalmente o nível baixou muito, faltam bandas que amam música.

Marcelo Gross: De uns 5 ou 6 anos pra cá a maioria das bandas que eu vejo crescer se preocupam com dinheiro, a última coisa que os caras gostam é música, não se ligam naquilo que já aconteceu, que ta acontecendo, a maioria dessas bandas acha que o rock começou com o Nirvana! Ta na moda ser rockeiro, botar um terninho, uma gravata, parece que é fashion isso! E não adianta, isso é algo que tem que nascer com você, no sangue, é algo que desde a primeira vez que eu ouvi eu gostei daquilo, curti a coisa.

Musicão: E hoje a coisa está cada vez mais homogênea, os estilos têm várias mutações e perdem a identidade, isso acaba deixando a cena mais pobre?

Marcelo Gross: Cara, se existe uma coisa que estilos como o emocore trouxe pra música foi conseguir unir todo mundo, o cara que curte punk, o metaleiro, o rockeiro das antigas, todo mundo pra odiar eles de tão chato que é (risos).

Musicão: Hoje a maioria das bandas que vocês gostam não existe mais, como vocês vêem essa volta de algumas à atividade?

Marcelo Gross: Olha, existem reuniões e reuniões, você pega o caso do Crosby, Stills,Nash & Young no palco é uma coisa, mas vê o caso de bandas como o Eagles, tem coisa que não funciona.

Beto Bruno: Uma banda dessas que voltaram que eu queria muito ver é o Jane´s Addiction, aí tem aquela questão se é por dinheiro ou não, poxa, eu quero ver os caras, se vier eu vou com certeza.

Marcelo Gross: Mas também tem aquelas bandas novas que a gente quer muito ver e normalmente não dão tanto valor, o Kasabian mesmo, não paro de ouvir os caras, ta muito bom o disco novo, é uma coisa que é nova, é diferente do que está rolando, é uma injeção nova no rock.

Musicão: A Cachorro Grande já tocou com várias bandas e vocês já viram muitos shows, existe alguém em especial que vocês gostariam de tocar juntos ou de ver o show?

Marcelo Gross: Cara, eu não posso morrer antes de ver o Paul e o Neil Young, são coisas da nossa influência que a gente não viu e acha fantástico. A gente conseguiu abrir show de duas bandas contemporâneas que a gente mais gosta, que foi o Supergrass e o Oasis.

Musicão: Vocês gostam de britpop e aquela tendência toda do início da década de 90?

Marcelo Gross: Gosto do Blur, que estão voltando agora, é bem legal, gosto de algumas coisas, assim como achava legal várias bandas que acabaram se perdendo na história, caso do Kula Shaker. Na música alternativa americana eu não me liguei tanto, escutei um pouco de Pavement, mas curti mesmo aquela coisa pós-grunge, o grunge mesmo eu não conseguia gostar, aquela coisa pesada, muita distorção, aquele vocal mais carregado. Quando apareceu o Supergrass, finalmente voltou aquele rock simples, que fala de sexo, drogas, saiu o grunge, aqueles caras mal-humorados, bravos, eu acho eles uns chatos, mas tem uma carreira sólida, de fãs, é questão de gosto mesmo.

Musicão: Ótimo, se fossemos colocar agora três bandas que vocês fossem indicar pro pessoal que curte vocês, quais seriam?

Beto Bruno: Kasabian, que a gente não para de ouvir, MGMT, que é chapadíssimo, e o Gnals Barkley.

Marcelo Gross: O novo do Prodigy é muito bom, mas o Kasabian é o lançamento do ano.


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