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Entrevistas

Kid Vinil e seus discos

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Publicada em 19, Jun, 2009 por Anderson Oliveira


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Confira a entrevista que Kid Vinil, comentarista da MTV, DJ e líder da extinta banda Magazine concedeu com exclusividade ao Musicão. Fotos por Renato Bras.


Em 2008 você lançou, pela Ediouro, o Almanaque do Rock, como foi o processo e o que você pode falar para todos que estão conhecendo ele pela primeira vez?
Kid Vinil: Na verdade esse foi um projeto que a editora me convidou, um dos editores da Ediouro me chamou, contou sobre alguns almanaques que já haviam sido lançados (N.R.: Almanaques do Rock Brasileiro) divididos por década de 80, 90... e me convidaram a fazer um contando sobre os ícones do rock and roll, dando uma visão minha e recomendando algumas coisas, a princípio eu não entendia muito bem o formato “almanaque”, no início eu até apanhei bastante, porque, normalmente, almanaque é curiosidade, fofocas... o meu eu quis fazer didático, tanto que no fim precisei dar uma enxugada, retirar algumas coisas, porque não cabia tudo, mas a proposta era realmente fazer algo didático, sem nenhum conteúdo fútil de nenhuma banda, até levantei várias histórias, mas no final eles optaram em usar uma coisa falando um pouco de cada banda e conseguimos transformá-lo nisso, as fotos foram todas retiradas de discos meus e eu tive uma liberdade grande pra fazer, uma pena que não foi possível ser tão abrangente como eu queria, até porque não caberia no livro, gosto de algumas coisas mais obscuras da década de 60, 70 e talvez isso não gerasse uma expectativa por parte do público, então foi melhor trabalhar com os ícones mesmo.

Atualmente você tem feito shows com o Kid Vinil Xperience, o que é esse projeto?
Kid Vinil: Exatamente, essa banda era basicamente o povo que tocava comigo no Magazine, depois mudaram, nós tocamos o repertório do próprio Magazine, mas tocamos também covers, bandas como The Clash, Ramones, todas aquelas coisas que a gente gosta, às vezes algumas músicas inéditas, a gente mistura tudo, é um repertório bem eclético, sempre voltado para o lado mais clássico do rock.

Você foi guitarrista da banda punk AI-5 no início da carreira, uma das bandas seminais do punk nacional, de lá para cá, qual sua opinião sobre o estilo no Brasil? Você acha que o punk hoje sofre uma repressão maior pelos meios de comunicação em geral?
Kid Vinil: Sim, fui guitarrista do AI-5, inclusive a música John Travolta foi regravada pelo Ratos de Porão em um tributo aos grandes clássicos do punk nacional, mas o punk, tanto aqui como lá fora, evoluiu muito, desde essa influência do pop, todas as tendências que foram surgindo, elas mudaram bastante o estilo, até mesmo naquelas bandas mais radicais, existem algumas bandas atuais que eu gosto muito, claro que algumas são mais obscuras, mas o próprio Jay Reatard eu acho muito bom, começou com uma pegada bem agressiva, mas agora ele já é pop, ele foi punk no começo, aí a Matador Records (N.R.: gravadora famosa nos EUA e Europa por contar com os maiores nomes da cena alternativa) transformou ele em um astro. É diferente, eu gosto das Vivian Girls, que é uma bandas de meninas de punk, mas que, de repente, elas podem virar uma The Runaways, uma banda maiorzinha. No geral é assim, a maioria das bandas começa com uma pegada mais punk, mas com o passar do tempo, quando tornam-se conhecidas, acabam trazendo essa sonoridade pop pra dentro dela. No rock nacional acho que pior ainda, porque você ouve o NX Zero, que não tenho nada contra, mas que é chamado de punk rock, e você sabe que é totalmente diferente do que era o Cólera, acho que a fórmula se diluiu, existem bandas daquela época que ainda existem e se mantém extremamente fiéis, caso do Invasores de Cérebro, mas tornaram-se totalmente underground.

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Você é um grande fã do The Clash, inclusive conseguiu vê-los ao vivo, depois de tanta coisa, você pode considerar esse o show da sua vida? Existe alguma banda na atualidade que você não tenha visto e gostaria muito?
Kid Vinil: Sim, vi o Clash em Leeds na turnê do London Calling, pra mim é o grande show a ser lembrado, é uma banda que sempre representou muito pro mim, talvez se tivesse visto um show dos Beatles, mas às vezes eu penso nisso, eles pararam de tocar porque não tinham mais condição de comportar uma apresentação, não havia aparelhagem suficiente, então nem sei se um show dos Beatles seria realmente bom de ver, talvez igual aquele no telhado do Abbey Road (risos), aí sim o sonho seria completo, mas consegui ver todos os grandes nomes do punk, o Buzzcoks, Shawn 69, Sex Pistols, Stiff Little Fingers, acho que não existe nenhum nome que eu tenha realmente esperado e não tenha conseguido ver daquilo que eu gostasse. Das bandas novas não existe nada que realmente cause aquela vontade, claro que você ouve algumas coisas mais obscuras e pensa “poxa, deve ser legal ao vivo”, bandas legais como o Rocket from the Crypt eu consegui ver lá fora na época, foi legal, existem algumas bandas boas hoje, mas não é nada que eu pensasse ser imprescindível, o Soft Pack, que é uma banda nova, eu estou apostando muito nela e gostaria muito de vê-los ao vivo, existe uma outra chamada Chapman Family, que está começando e eu gostei muito, na verdade eu gostaria de ver essas bandas que estão começando, até pra ver o embrião disso tudo.

Falando de reunião de bandas, o Blur está voltando agora após 10 anos, o próprio Sisters of Mercy voltou de uma reunião e veio de novo ao Brasil, algumas bandas da década de 70, 80 voltaram, como você vê isso? Dá pra esperar algo legal ainda dessas bandas?
Kid Vinil: Olha, eu acho bacana, mas no caso do Sisters of Mercy, eu gosto demais da banda, mas no caso do Andrew (N.R.: vocalista do Sisters of Mercy), não existe mais nada a acrescentar, de vez em quando ele acha que precisa levantar uma grana, pega qualquer música e gera aquela imensa expectativa no fã, que vê como a oportunidade de ver as bandas que gostou durante a vida, aí ele não faz a menor questão de agradar o público, os fãs ficam na maior apreensão de um disco novo... acho isso um pouco de sacanagem. No caso do Blur é um pouco diferente, eu acho o Damon Albarn um cara inteligentíssimo, aqueles projetos dele, o The Good, The Bad and The Queen e o Gorillaz são muito bons, então eu acredito que ele possa fazer uma coisa legal ainda, o próprio Graham Coxon também tem discos bons, a título de Blur eu acho que pode render algo sim, mas também pode decepcionar, o The Verve mesmo, que é uma banda que eu adoro, voltou e lançou um disco que não é exatamente ruim, mas podia ser melhor, é diferente daquilo que foi a primeira e a segunda fase deles.

Kid, no início da década você foi diretor da gravadora Trama e responsável direto por diversos lançamentos aqui, além de vários shows inimagináveis naquela época, existe algo que você tentou muito fazer com que viesse pra cá e não conseguiu?
Kid Vinil: A época da Trama foi legal, conseguimos lançar muita coisa da Matador Records, lançamos o primeiro disco do Franz Ferdinand aqui, coisas do Yo La Tengo, conseguimos trazer vários bons shows pra cá também, o Belle and Sebastian, Sigur Rós, Grandaddy... mas eu queria muito ter trazido o Pavement, nós conseguimos trazer o Stephen Malkmus (vocalista do Pavement) para alguns shows, eu vi eles lá fora e adorava os shows deles, acho que foi uma banda que eu queria muito ter trazido, mas infelizmente não deu certo, o Guided By Voices foi uma banda que eu gosto muito e poderia ter trazido, a gente até gravou uma música que vai sair em um tributo a eles!

Na época do Kid Vinil e os Heróis do Brasil você tocou com grandes nomes da música brasileira, caso da Rita Lee, outro nome foi André Christovan, guitarrista de blues, qual sua ligação com blues naquela época e hoje?
Kid Vinil: Eu sou um grande fã de blues, gosto muito, sempre gostei, não sou aquele profundo conhecedor, mas sou um admirador, eu gosto muito de John Mayall, os álbuns dele da década de 70 são verdadeiras obras de arte, mas hoje é um problema, na verdade acho que o músico chega uma hora que se desgasta também, adoro Eric Clapton no Cream, nos primeiros álbuns solo, mas hoje ele é um senhor que toca guitarra, diferente, não é igual, o próprio Santana era maravilhoso no começo, mas depois criou um “Santana Convida”, todos mudam, o próprio Jeff Beck caiu pro jazz, que é legal, mas é diferente daquilo que consagrou todos eles, acabam dirigindo a carreira deles pra outros rumos, até por causa da popularidade, no caso do Jeff Beck você vê que é um cara inteligentíssimo, ele tocou no disco do Morrissey e a parceira foi super bem-sucedida.

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Você apresentou o Lado B e outro programas de TV, você sente falta de fazer isso? Acha que a TV acabou se fechando mais pra música de anos pra cá?
Kid Vinil: Eu sempre adorei fazer TV, queria muito voltar a fazer, mas voltar com algo legal, algo tipo o Lado B, uma coisa que me desse liberdade igual o próprio blog que eu tenho na MTV, de ter a liberdade de colocar o que eu quiser, o meu gosto pessoal, tanto que até destoa o conteúdo que eu publico lá, eles aparecem falando do Jonas Brothers e eu entro falando de Manic Street Preachers (risos), que é uma coisa conhecida, mas para o público mais pop soa totalmente distante, mas de qualquer forma é algo diferente, eles poderiam transformar isso em um espaço na TV. Hoje a TV não tem mais abertura, mas há alguns anos o rock era popular, então você tocava em qualquer programa de televisão, hoje está muito mais underground, mas é coisa de momento, outra hora o rock pode voltar a ser popular e voltar a aparecer mais.

A figura Kid Vinil é uma das mais lembradas pelo público como representante da década de 80, hoje pegamos várias bandas que, independente do estilo, são lembradas unicamente por serem da década de 80, você acha que esse rótulo comprometeu a evolução dessas bandas e do rock nacional como um todo?
Kid Vinil: Esse é um grande problema, essa coisa de “anos 80” ficou muito marcada, os revivals todos, e viajo o Brasil inteiro com essas histórias de shows, festas dos anos 80. Abriu um espaço de shows absurdo, é engraçado, virou uma febre, a gente pensou que ia durar um, dois anos, mas ficou! Tudo bem, estamos trabalhando, ótimo, mas ficou o rótulo, não tem jeito, parece existir um carimbo sobre a gente escrito “década de 80”, por um lado eu não acho isso tão mal, eu estava pensando esses dias “e o carimbo anos 90?”, ele não existe, talvez por marcarmos tanto uma época, existiram várias banda que apareceram a desapareceram no meio da década de 90 e ainda tocam, mas ficaram esquecidas, caso do Surto, Virgulóides, várias outras. Eu fico pensando se daqui 10 anos elas vão ser resgatadas, se vai haver um revival dos anos 90 também, grande parte dessas bandas toca hoje em bares. Acho que por marcar uma época não existe como fugir do rótulo, é como Jovem Guarda, não tem como fugir disso, é Jovem Guarda e acabou, hoje mesmo, o NX Zero mesmo marcou esses anos, daqui 20 anos podem não existir mais emos, a banda pode fazer muita coisa diferente nesse período, mas sempre serão taxados de emo. Outros estilos também como o grunge, é grunge e pronto, ficou marcado.

Falando em movimentos, o grunge foi o grande nome da década de 90, você acredita que a última grande virada da música tenha sido o surgimento dos Strokes?
Kid Vinil: Ali no fim da década de 90 mesmo os Strokes já foram um marco do chamado “novo rock”, foi sem dúvidas um divisor de águas, é o que marcou essa época, hoje em dia a gente tem a new rave, mas não é derivado do rock, é mais da música eletrônica que foi tendo suas ramificações, acho que tem muito a ver com a própria new wave, caso de Human League, Talking Heads, é tudo referência desse povo hoje. Hoje escuto um monte de bandas novas e penso “essa é Talking Heads, essa é Devo”, o próprio Foals e o Rapture são Talking Heads puro.

E era dfiícil conseguir material dessas bandas naquela época?
Kid Vinil: Era complicado, você só conseguia com quem viajava, aquela coisa toda, engraçado que um colega nosso era comissário de bordo e tinha uma loja chamada Bossa Nova, e no momento ele era o cara que me trazia tudo e depois montou a loja, então era um desespero, por exemplo os 12” dos Smiths, lembro quando chegou Panic, The Boy With The Thorn In His Side, meu, tinha nego que se quebrava na loja porque ele trazia uma, duas cópias só, a informação dos Estados Unidos era um pouco mais fácil, mas da Europa era super complicado.

Daqui pra frente, o que podemos esperar de você Kid? Existem planos para o futuro?
Kid Vinil: (risos) Estamos aqui pro que der e vier, não existe nada que eu queira fazer exatamente, a Ediouro teve a idéia de criar um livro falando do rock nacional da década de 50 pra cá, e vai ser muito complicado, eu estou ensaiando, mas é complicado, eu gosto muito do rock brasileiro dessa década pra cá, curto várias coisas, mas é muita coisa, é um trabalho de pesquisa absurdo, é um projeto deles, estão cobrando, mas é algo que tem que ser feito devagar, às vezes eu também sou preguiçoso (risos), não dá pra ficar o dia inteiro no computador escrevendo sem parar, pesquisando, porque não podemos deixar passar datas, sair alguma besteira, é complicado, mas eu vou tentar!!


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