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Coberturas de shows

Gilberto Gil e Caetano Veloso no Centro de Eventos do Ceará

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Publicada em 22, Nov, 2015 por Daniel Tavares

Clique aqui e veja as fotos deste show.


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Inicialmente programado para acontecer no novíssimo Centro de Formação Olímpica, o show dos baianos Gilberto Passos Gil Moreira e Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, indiscutivelmente dois dos maiores nomes da música brasileira, foi transferido para o Centro de Eventos do Ceará. Caetano e Gil, depois de levar o mesmo show para a Europa e para uma controversa apresentação em Israel estão percorrendo o Brasil em comemoração aos seus cinquenta anos de boas contribuições à cultura do Brasil. Estivemos lá, este repórter e o fotógrafo Lua Alencar, para conferir este imperdível espetáculo. Sobre o local, que é um equipamento do governo estadual, há que se falar que é enorme, luxuoso, de fácil acesso e, à princípio, de fácil estacionamento (chegamos cedo). Nesses tempos pós-Santa Maria e apenas um dia após os atentados na França, também é preciso ressaltar que as brigadas de incêndio e profissionais da saúde estavam à postos para prestar socorro em caso de qualquer eventualidade. Outro detalhe é que as cadeiras nos primeiros setores davam ao ambiente um ar mais de teatro que de arena.

Logo que se abrem as cortinas, os dois astros grisalhos já iniciam o show com "Back In Bahia" (Gilberto Gil, 1972). As duas vozes se casam perfeitamente na canção de retorno de Gil, após o exílio em Londres, como a letra acaba se casando com quem, por um motivo ou outro, teve que "dividir a vida pra lá e pra cá". O pano de fundo de palco, no entanto, parecia diferente, um tanto mais simples que o já visto em imagens dos shows anteriores (disponíveis na internet).

A partir daí, Gil e Caetano começam a dividir as canções do repertório, passeando por "Coração Vagabundo", iniciada por Gil e continuada por Caetano, "Tropicália" (recebida com gritos de entusiasmo pelo público) e Marginália II, todas de 1967. O coro de fortalezenses já se manifestou em "Coração Vagabundo" e ninguém conseguiu ficar calado no refrão da canção símbolo do movimento do qual Gil e Caetano são os principais expoentes.

Só antes de "É Luxo Só, os dois astros interagem pela primeira vez com o público com um simples boa noite. O show, com 30 canções no setlist seria todo assim, direto e reto. Apesar disso, os dois estavam simpáticos, felizes, Caetano até repousa o violão na canção que foi sucesso na voz de João Gilberto e arrisca começar a dançar. Sobre "De Manhã", a seguinte, Caetano avisou que era a mais antiga da noite e que a próxima seria a mais nova. "As Camélias do Quilombo do Leblon" fora composta quando voltaram da turnê na Europa. "Vimos as tristes colinas de Hebron", dizem eles, relembrando o polêmico show em Tel Aviv (sobre o qual chegaram a receber cartas de Roger Waters, ex-PINK FLOYD, solicitando o cancelamento), além de mencionar uma "segunda abolição" na letra um tanto repetitiva. Será necessário mais audições da canção para absorver todo o conteúdo que eles desejaram passar, mas isso não será um problema, pois o show de 25 de junho na capital paulista foi gravado e sairá em DVD em 27 de novembro próximo.

A partir daí o show transforma-se numa apresentação quase individual de Caetano (com o luxuosíssimo acompanhamento de Gilberto Gil - só Caetano seria capaz dessa façanha), passando, obviamente, por "Sampa", hino do estranhamento de paulistanos e não-paulistanos diante da metrópole feia e linda. "Terra", vem uma apresentação de arrepiar, com o pano de fundo escurecido ou mudando de cor para uma tonalidade de vermelho ("leão de fogo"). Caetano ainda convida o público para cantar uma das últimas partes e explora o violão também como instrumento de percussão. Sobre o backdrop, há de se comentar que de certo ponto do show em diante, o que parecia simples torna-se um delicado jogo de luzes e sombras, impressionantemente passando uma mensagem diferente relacionada a cada canção. Já vimos isso muitas vezes com o auxílio de telões de fundo de palco, mas a utilização de recursos não tão tecnológicos conferia ao artifício uma dualidade impar entre simplicidade e complicação. É uma pena que, no entanto, isto não tenha sido bem explorado pelo operador dos telões (os laterais de palco), que parecia permanecer estático o tempo inteiro do show, focando (claro) as atrações principais, mas perdendo um pouco da poesia que os rodeava, perdendo as diferentes mensagens enviadas através do excelente trabalho de iluminação e cenografia . Tomara que no DVD a captação de imagens tenha sido melhor.

O show de Caetano continua com ele se afirmando vivo, muito vivo, em "Nine Out of Ten", de seu disco de 72, "Odeio", de 2006 da recente fase roqueira, e na pungente canção em espanhol "Tonada de Luna Llena, de Simón Díaz, em que Gil permanece no palco mas os holofotes estão todos apenas sobre Caetano.

Gil volta ao limelight para cantar novamente sua terra natal, dividindo a ode "Eu vim da Bahia" com Caetano, que também veio de lá, que algum dia ainda volta pra lá. E se Caetano inicia "Super Homem, a Canção", que ele também cantara antes no disco de covers de 1994, é com a voz original que o público mais se alegra. E por falar em covers, "Come Prima", que o mundo conheceu na voz de Tony Dallara e Caetano havia gravado em sua homenagem a Federico Fellini, "Omaggio a Federico e Giulietta". A canção, embora bonita, desperta o questionamento: seria necessária? Se o resgate de canções que ficaram mais obscuras na discografia de Caetano e Gil é sempre interessante, cada canção ali está tomando o lugar de outra, que talvez agradasse mais a multidão. "Trem das Cores", talvez sobre "Trilhos Urbanos", no caso de Caetano, "A Paz", no caso de Gil, são sentidas ausências. No entanto, com um repertório tão imenso, reunindo mais de cem discos de ambos, as ditas ausências jamais acabariam. Duas horas e trinta músicas para explorar tão vasta e rica discografia são mesmo como cobertor pequeno: se cobre a cabeça, descobre o pé.
Continuando o show dos mestres não só da voz e letras, mas também dos violões (quem tem um violão e nunca comprou uma revista de cifras com alguma música da dupla e se espantou com a quantidade e dificuldade dos acordes?), o público cantou junto a música "Esotérico", de Gil. E enquanto Gil afina o violão para muito fazê-lo sofrer, Caetano toma um copo de vinho e é sua vez de sair do foco das luzes. Há momentos no show em que um é mero expectador do outro, no mais nobre local do recinto: sobre o palco. As seis cordas sofrem nas mãos do Professor Mago Gil na espanhola "Tres Palabras", seguida de seu grande sucesso "Drão". E o talento de Gil tanto como instrumentista, quanto como letrista ficam ainda mais evidentes na recente "Não Tenho Medo da Morte", de 2008, quando, apropriadamente, fica tudo escuro no palco.

Agora tudo se ilumina para a alegre "Expresso 2222" e o clima de encantamento feliz continua com "Toda Menina Baiana". "Fortaleza canta", pede Gil, entre um e outro de seus agudos. O sincretismo baiano não poderia faltar e é representado por "São João Xangô Menino". E a dupla continua avisando lá que a capital cearense era, ao menos naquela hora, uma sucursal da capital baiana com "Nossa Gente". O público continuou em festa com muitas palmas em "Andar Com Fé" e atendeu ao chamado para ver os "Filhos de Gandhi". Todos em pé, o Centro de Eventos do Ceará já não é mais um teatro.

Era quase fim de espetáculo, Gil e Caetano deixam a cena, mas o público continua em frente ao palco cantando "Tieta". "A Luz de Tieta" é mesmo uma das canções do Bis, precedida de "Desde que o Samba é Samba" e "Domingo no Parque". E já que estava todo mundo em pé, porque não dançar? Definitivamente, muitos já tinham deixado as cadeiras de lado e aglomeravam-se mais perto de seus dois ídolos, que, dançando, deixam o palco mais uma vez. Ainda voltariam para um segundo bis com "O Leãozinho" e o reggae de Bob Marley, "Three Little Birds". Os dois ídolos, que sorte poder estar presente e ver ambos ao mesmo tempo, mesmo sem falar muito, tinham deixado sua mensagem: mensagem de 100 anos de música.

Agradecimentos:
Arte Produções, especialmente Thamires Heros e Jéssica Malheiros, pela atenção e credenciamento.
Lua Alencar, pelas lindas fotos que ilustram esta matéria.


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