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As raízes de Max e Iggor ressurgem no caos das ruas sujas e escuras do Butantã após vendaval

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Publicada em 06, Nov, 2018 por Vagner Mastropaulo


Max-Iggor-Cavalera.jpg
Quis o destino que os shows do Sepultura (despedindo-se da cidade no giro de Machine Messiah) e dos irmãos Cavalera tocando os clássicos de Beneath The Remains e Arise fossem separados por meros sete dias. Ótimo para os fãs. E se você conteve a ansiedade e não procurou informações prévias, com certeza foi ao Tropical Butantã pensando em ouvir os dois trabalhos na íntegra. Não foi o caso. Posto friamente foram: seis faixas de cada play; um cover; um medley (desnecessário, embora simbólico); e mais um clássico de Morbid Visions (ou do relançamento de Schizophrenia); um de Chaos A.D.; e outro de Roots. Obviamente houve emoção, e muita, pois a caminho da casa, o cenário era de trevas, no sentido literal, com um corte de luz nas adjacências provocado por fortíssimas rajadas de vento que se iniciaram no bairro por volta das 19 horas, deixando estabelecimentos comerciais às escuras e afetando o trânsito (com todos os faróis da Vital Brasil apagados). Sorte que o Tropical possuía gerador e lá dentro quase tudo seguiu a contento.

Oriundos de Guarapuava e portando uma bandeira do estado do Paraná, o Ultra Violent abriu seu set poucos minutos antes das 20:40, optando por não tocar faixas de seu EP homônimo de 2010, priorizando músicas de 2012 em diante, o período por eles batizado como "a nova era Ultra Violent", com letras em português (não confunda-os com o UltraViolent americano, o Ultra Violent britânico dos anos 80, ou os Ultra-Violences italiano e colombiano). Vencedores de uma votação popular em um site e já com metade da casa tomada, o início do show foi original: com os músicos no palco, primeiro deu-se a impressão de fazerem os últimos ajustes, então lá permaneceram parecendo estar tocando a primeira música, mas uma brusca interrupção e um "Boa noite" cravaram o real começo da noitada. Era a Intro, posteriormente explicada pelo vocalista/guitarrista Guilherme Rocha à nossa equipe: "Ela não é algo gravado em estúdio. Nós compomos e a cada show bolamos uma intro diferente, do jeito que gostamos". O set foi formado pelos dois singles lançados: I.N.E.R.T.E (2015) e Um Passo Para Trás (2016) e quatro músicas que estarão no novo EP, ainda sem título e que será lançado em 2019. No mesmo depoimento à nossa equipe, Guilherme foi sincero na análise: "Viajar por onze horas para tocar é algo cansativo e muitos acabam desistindo, mas tocamos desde moleques, então nos inserirmos na cena de São Paulo, abrindo um show como este, foi sensacional e lavou nossa alma. A recepção foi demais e queremos voltar em breve".

Após rápidos dez minutos de intervalo e como parte de uma safra de ótimas bandas nacionais instrumentais contemporâneas (como Labirinto, Saturndust e Noala, só para citar três), o DeafKids ou DEAFKIDS (e não Deaf Kids ou Deafkids) trouxe seu interessante som e, por si só, sua escalação em um line-up thrash foi um ato de ousadia. Diferentemente da aceitação imediata ao abrir para o Neurosis (Carioca Club em dezembro último), o trio foi posto à prova e não se intimidou. Ponto para os músicos e fãs que, menos radicais hoje, souberam apreciar o experimentalismo do grupo de Volta Redonda, agora radicado em São Paulo (o batera Mariano Melo, por exemplo, é figura constante nos shows underground da cidade e, há três semanas estava na Fabrique curtindo o Eyehategod, para quem seu conjunto abriu em junho na Suíça). Na pista, alguns curtiam e buscavam encontrar um modo de agitar, outros abstraiam ou acharam o momento propício para ir ao bar e um ou outro gato pingado reclamava sem sequer se esforçar para entender a proposta dos caras. Enquanto isso, Dovglas Leal (guitarra, samplers e voz) - com "v" mesmo, Marcelo "Angu" dos Santos (baixo) e o citado Mariano detonavam sem decoração alguma no palco, utilizando a mesma bateria do Ultra Violent, mas com peles nos bumbos da banda seguinte. O som foi uma viagem com pitadas de Ministry em algumas partes e o set foi basicamente formado por faixas de Configuração Do Lamento (2016) e The Upper Hand (2014), com espaço para uma inédita, Templo Do Caos, e o recém-lançado auto-intitulado single Espiral Da Loucura. As luzes majoritariamente vermelhas eram metáfora do inferno na casa, em insuportável calor sem ar condicionado, ainda devido à falta de energia. E foi uma pena que nem todos assimilaram a sonzeira da cozinha de Mariano e Marcelo somada aos efeitos de Dovglas (com influência dos inúmeros projetos de Mike Patton), o único a dizer algo à platéia: "Boa noite" (após vinte minutos) e "É nóis", depois. Show para abrir a cabeça da galera!

Durante os dez minutos de intervalo, tomou-se decisão sensata e inusitada: por maior circulação de ar, minimizando a chance de alguém passar mal, os seguranças abriram as duas portas laterais do Tropical, fechando-as no início do show do Endrah (mas tornando a abri-las logo depois). O set foi uma pancadaria e privilegiou faixas de Endrah (2006), além de Priced Out Of Paradise, do EP Shoot, Shovel, Shut Up (2016) e Your Life Deleted, do single homônimo (2017). Só que não se ouviam os vocais e guitarras no início de Worms Of Envy, abrindo o show. Como curiosidade, o grupo surgiu como Ink em 2002, um projeto paralelo de Billy Graziadei (Biohazard) com Fernando Schaefer nas baquetas e o guitarrista Covero, único remanescente. A troca de nome rolou em 2004 por já existir um outro Ink. Em conversa após o show e no grupo desde 2015, o baixista Adriano Vilela nos deu mais detalhes: "O nome vem do deus hindu Indra e foi colocado um ´E´ no começo para soar diferente e um ´h´ no final para lembrar o Meshuggah, pois nossas músicas têm muito tempo composto e uns breques do nada". Billy chegou a gravar as guitarras nas faixas do primeiro EP, DEMONStration (2004), e até tocou no Blackmore em março de 2004, mas deixou o conjunto que, ainda bem, seguiu na ativa. Para quem não os conhecia, deve ter soado estranha a comunicação do vocalista com um arrastado sotaque mesmo falando português claro (e, por vezes, inglês). O fato é que Ryan "Relentless" Raes é americano e mora em Napa Valley, Califórnia. Questionado sobre a dinâmica, Adriano afirmou: "Nós programamos as tours com antecedência e ele vem para cá ou nós vamos para lá. Fazemos todas as composições aqui no Brasil e mandamos para ele colocar os vocais e gravar lá nos Estados Unidos mesmo, onde será nossa próxima tour, em janeiro". Agitando sem parar, as rodas pedidas por Relentless desde o começo só surgiram na citada Your Life Deleted e a esta altura todos os instrumentos estavam bem equalizados, mesmo com o som do microfone de Relentless saturado. Na fronteira do hardcore com o death metal, a apresentação foi um arregaço, fechado por 61 Rounds, a primeira música do primeiro álbum.

Com as portas laterais do abarrotado Tropical ainda abertas e após cinqüenta minutos de espera (dez antes do programado), ouviu-se a intro de Beneath The Remains com a faixa-título abrindo uma mega roda logo de cara! Max e Iggor Cavalera no palco, este vestindo camisa do Palmeiras, com Mark Rizzo (guitarra - Soulfly, Cavalera Conspiracy, ex-Ill Niño) e Mike Leon (baixo - Soulfly e The Absence, ex-Havok) completando o time. Ao seu término, Max anunciou o que viria: "São Paulo, andando nessas ruas sujas, walking these dirty streets, with hate in my mind, feeling the scorn of the world, I won´t follow your rules: Inner Self"... arrepiou! E para a seguinte o vocalista manteve a tática: "Sangue nos olhos, mais forte do que o ódio, Stronger Than Hate", com pausa dramática antes de entrar os vocais e two hands de Mike Leon, emendada a outro clássico: Mass Hypnosis. A seqüência do álbum só foi quebrada ao tocarem Slaves Of Pain (e não Sarcastic Existence): "uma das primeiras músicas que a gente fez para o Beneath The Remains, que a gente gravou em 1989 e saiu para o resto do mundo", segundo Max, que assim explicou a última do play na noite: "Para o bicho pegar aqui, a que abria os shows da turnê europeia e também do Rock In Rio 1991. Vamos abrir a roda aí: Primitive Future", encerrando a parte inicial do concerto a mil por hora!

Como decoração, apenas o bandeirão de fundo contendo uma fusão das artes de Beneath The Remains e Arise, com um "Cavalera" estilizado acima, em fonte similar à do logo do Sepultura dos tempos de Morbid Visions e Schizophrenia. O desenho era o mesmo das peles dos bumbos de Iggor e de uma das camisetas do merchan, rapidamente esgotado (quem demorou para entrar ficou sem), vendido por Richie Cavalera, enteado de Max e vocalista do Incite, uma das duas bandas a abrir para os Cavalera na Return To Roots Tour, em dezembro de 2016 também no Tropical Butantã. Para as músicas de Arise, após a introdução da faixa-título, usou-se o mesmo método, com Max anunciando: "Under a pale grey sky, we shall Arise". Antes, ainda sem a banda no palco, um fã lá subiu e pegou uma palheta no suporte do microfone de Max. Como se tal insanidade não bastasse, a faixa abriu outra roda gigantesca e fez fãs pularem alucinadamente enquanto um cidadão mais afoito arriscava dois crowdsurfings! Dead Embyonic Cells trouxe intenso pula-pula, de fazer inveja ao Carnaval de Salvador (ainda mais com Max pedindo para que todos erguessem as mãos), e foi seguida por Desperate Cry (era um hino após o outro!), cujo final de bateria de Iggor foi simplesmente arrasador, sob luzes tão verdes quanto o uniforme por ele vestido. Altered State acalmou um pouco os ânimos (principalmente por contar com uma parte instrumental mais longa e intimista no final), foi seguida de Infected Voice (e mais uma enorme roda) e de outra que deu respiro ao público, ainda que em versão mais rápida do que no álbum: o cover de Orgasmatron, que fez a alegria de um fã com camiseta do Motörhead ao lado deste escriba e pirou ainda mais com outro cover dos ingleses, agora de Ace Of Spades, com Max apenas cantando, sem sequer ter a guitarra pendurada no corpo.

Saindo do palco, Max deu o recado: "É o seguinte, tá calor pra caralho! Vamos pegar um minutinho de descanso. Se vocês querem mais, têm que gritar. A gente vai dar mais, mas quero ouvir vocês gritarem". Enquanto o pedido era atendido, uma versão do Mestre dos Magos em forma de roadie ajeitava tudo no palco e veio a faixa mais antiga do set, Troops Of Doom, precedida de uma pegadinha: batidas de Iggor nas caixas em ´tum-tum-tum´ e Mark Rizzo emendando o riff de Raining Blood (Slayer). Sacanagem... Cantada em uníssono (até porque, após mais de uma hora de show, a potência vocal de Max já tinha pedido arrego), Refuse/Resist tiraria todos do chão outra vez e, em sua tradicional pausa, Max pediu um "paredão da morte, com só os suicidas no meio". Uma vez que a porteira Chaos A.D. havia sido aberta, deu vontade de ouvir Territory emendada, com a fantástica levada de Iggor, mas não rolou (talvez por ter letra de Andreas). E a noite só não foi encerrada em Roots Bloody Roots (em perfeitas luzes vermelhas e com Max vestindo camisa do Palmeiras) porque um medley de quase quatro minutos com Arise, Beneath The Remains e Dead Embryonic Cells foi tocado, até para re-contextualizar tudo. Mesmo assim, não dava para trocá-lo por algo não tocado? No frigir dos ovos, pouco importou, pois os presentes com menos de trinta e cinco anos que perderam a turnê comemorativa de vinte anos de Roots em 2016 acabavam de ouvir uma sucessão de clássicos tocados por Max e Iggor pela primeira vez na vida e partiam extasiados! O que será que os irmãos Cavalera vão inventar agora para excursionar? Que voltem logo!

Setlists / Informações

01) Ultra Violent (Guarapuava - 2008) - http://www.facebook.com/ultraviolentbr
Formação: Guilherme Rocha (guitarra e vocais), Rudy Alves (baixo) e Rafael Pelete (bateria)
Estilo: Metal Hardcore (como definido no ´about´ do Facebook oficial)
Entrada Programada: 20:40
Entrada Real: 20:37
Saída: 21:03
Duração: 36´

01) Intro
02) Ansiedade
03) Um Passo Para Trás
04) I.N.E.R.T.E
05) Centoenoventa
06) Lama De Sangue
07) Quem É Você?

O trio foi o mais votado no site www.bandasindependentes.com. As outras catorze finalistas foram: Terminattor, Inraza, Armahda, Never Look Back, Core Divider, Lacuna, D.I.E., Valveline, Cassino Driver, Devassa, Underworld Secret, Siriun, Anguere e Mickey Pad

02) DeafKids (Volta Redonda - 2010) - http://www.facebook.com/deafkidspunx
Formação: Dovglas Leal (voz, guitarra e samplers), Marcelo "Angu" dos Santos (baixo) e Mariano Melo (bateria)
Estilo: Punk/Hypnobeat/Noise/Psychedelic (como definido no ´about´ do Facebook oficial)
Entrada Programada: 21:20
Entrada Real: 21:14
Saída: 21:44
Duração: 30´

01) Limbo
02) As Mesmas Ferramentas, Os Mesmos Rituais
03) In My Flesh
04) Templo Do Caos
05) You´re Mine
06) Propagação
07) Pés Atados
08) Lâmina Cortante
09) Espiral Da Loucura

03) Endhra (São Paulo - 2003) - http://www.facebook.com/endrah
Formação: Ryan "Relentless" Raes (vocais), Covero (guitarra), Adriano Vilela (baixo) e Henrique Pucci (bateria)
Estilo: Deathrashcore (como definido no ´about´ do Facebook oficial)
Entrada Programada: 22:10
Entrada Real: 21:56
Saída: 22:28
Duração: 32´

01) Worms Of Envy
02) Turns Blue
03) Priced Out Of Paradise
04) A Lot Of Blood
05) Your Life Deleted
06) 61 Rounds

04) Max Cavalera/Iggor Cavalera (Belo Horizonte - 1984 no Sepultura) - sem Facebook oficial
Formação: Max Cavalera (vocais e guitarra), Iggor Cavalera (bateria), Mark Rizzo (guitarra) e Mike Leon (baixo)
Estilo: Thrash Metal
Entrada Programada: 23:30
Entrada Real: 23:21
Saída: 01:42 (somada uma hora com a entrada do horário de verão)
Duração: 1h21´

01) Beneath The Remains
02) Inner Self
03) Stronger Than Hate
04) Mass Hypnosis
05) Slaves Of Pain
06) Primitive Future
07) Arise
08) Dead Embryonic Cells
09) Desperate Cry
10) Altered State
11) Infected Voice
12) Orgasmatron [Motörhead Cover]
13) Ace Of Spades [Motörhead Cover]
Encore
14) Troops Of Doom
15) Refuse/Resist
16) Roots Bloody Roots
17) Medley (Arise / Beneath The Remains / Dead Embryonic Cells)

Agradecimentos a: Thiago Rahal Mauro, Guilherme Rocha (Ultra Violent), Renato Albuquerque (equipe técnica do DeafKids) e Adriano Vilela (Endrah)


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