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Coberturas de shows

Lobão no Teatro RioMar

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Publicada em 27, Jul, 2015 por Daniel Tavares

Clique aqui e veja as fotos deste show.


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Lobão é polêmico. Isto é um fato. O João Luiz Woerdenbag Filho pode não ser, é um sujeito comum, como eu e você, mas o Lobão é polêmico. O músico é polêmico como seria qualquer figura pública, que se expõe em atos, palavras e omissões, especialmente ao jogar os holofotes sobre seu posicionamento político num país que foi tão dividido nos últimos meses, como se meio Brasil fosse a torcida de um clube de futebol, e a outra metade fosse a do seu rival, todos unidos apenas em torno da suposta obrigatoriedade de passar horas discutindo no Facebook. Recentemente, uma matéria que escrevi para o Whiplash.net, mesmo neutra do ponto de vista político, despertou tantos comentários apaixonados que eu sequer consegui terminar de ler. Dois deles, em especial, são até maiores que a própria matéria. Mas o que nos interessa aqui é musica, não política, não polêmica. E é apenas de música que vamos falar a partir de agora (ou pelo menos tentar). Quem segue o músico/ativista nas redes sociais, especialmente no Twitter, acreditaria que seria uma tarefa difícil resenhar um show do Lobão deixando a política em segundo plano. Felizmente, o que presenciamos eu, o fotógrafo Gandhi Guimarães e as centenas de presentes no luxuoso Teatro Rio Mar (no shopping de mesmo nome, em Fortaleza) na sexta-feira, 24 de julho, mostrou que este pensamento era um engano. Ledo engano.

O show foi parte da turnê "Sem Filtro", que está percorrendo o país com Lobão acompanhado de um violão de 12 cordas, uma viola, dois violões (provavelmente com cordas de aço e nylon), uma cadeira, um tapete, uma taça de champanhe e nada mais. Durante o show, que detalharemos abaixo, o músico cantou e tocou canções do disco novo, "O Rigor e a Misericórdia", a ser lançado brevemente, além de clássicos que estiveram nas bocas do Brasil inteiro nos anos 80 e 90. O local, como já provado em shows anteriores é bastante aconchegante e reúne todas as facilidades de um shopping, como acessibilidade, estacionamento, comodidade. O horário do show também contribuiu. Apesar da micareta que ocorria em um bairro próximo, não tivemos problemas com o trânsito.

O astro entrou sorridente no palco, anunciando que começaria o "luau" com uma música do disco novo, "Os Vulneráveis". Era isso. Enquanto nas proximidades o carnaval fora-de-hora exaltava estilos para quem tem o cérebro nos pés (a saber, axé, forró e sertanejo "universitário"!!!), estaríamos os cerca de quatrocentos presentes no teatro protegidos pelo bom rock brasileiro em português. E o anfitrião, a despeito de qualquer preconceito contra ele, era um sujeito bastante simpático. Além de cantar, Lobão contava o que o tinha inspirado a criar cada música, o que fez do show mais que um show, uma aula. "Assim Sangra A Mata", cantada com alguma espécie de efeito no microfone no refrão, por exemplo, tratava de uma ida sua a um garimpo, como jornalista. No entanto, Lobão revelou que tinha recebido instruções do veículo para o qual colaborava para não falar do uso de mercúrio e do desmatamento na área. Isso o tinha revoltado, como faria a qualquer jornalista sério. Ainda no mesmo assunto, o músico lembrou que recebeu represálias do veículo ao não fazer conforme fora ordenado. "Até em programa de esporte tinha gente que me xingava. O atacante chegava na cara do gol e errava, pausa, o Lobão é um babaca, pausa. Como é que o cara perde um gol desses?". Bem, isso também me lembrou de uma entrevista com um autor de novelas em uma certa revista. Enquanto a maioria das questões era sobre a novela em si e sobre a morte recente de um filho do entrevistado, uma pergunta sobre a situação política do país recebia o destaque em caracteres maiores no centro da página. Coisas de imprensa. Ok, prometi não falar de política. Vamos em frente.

O formato do show aproximava o músico do público, de uma forma que seria impossível em um show de clube ou arena. Lobão estava particularmente feliz, muito provavelmente por ter atingido (a um dia do fim do prazo e a despeito de algumas matérias que, talvez intencionalmente, ignoravam como funcionam projetos de kick-starting e todas as suas modalidades de premiação), 107% da quantia esperada em seu projeto de crowdfunding. Lobão também pontuou que a Lei Ruanet deveria privilegiar artistas em início de carreira (ou veteranos mas em iniciativas economicamente inviáveis). "Artistas consagrados se beneficiando da Lei Ruanet é safadeza". Seguindo em frente, o músico revelou que fez a próxima canção, "A Esperança É A Praia do Outro", para sua cunhada, que descobrira ter câncer. "Das Tripas Coração" também era uma homenagem. Seus três amigos, Cazuza, Julio Barroso e Ezequiel Neves eram os destinatários. A música também se relaciona com a atividade de escritor de Lobão e ele, assim como o homenageado Cazuza, sempre demonstrou grande habilidade no manuseio do idioma dos lusos. E no afã de misturar um chorinho com country (e explicar isso depois), nascera "Chorando no Campo". E este foi o primeiro grande hit da noite.

Brindando a viola caipira (instrumento que nos deixa de herança muitas canções brejeiras de maior valor que o "universitário" que já xinguei), Lobão inicia um set ainda mais intimista (sim, foi possível). A primeira deste set era uma tentativa de se reconciliar, através da música, com o pai falecido. Mesmo falando sobre conceitos científicos e transcedentais como teletransporte, entrelaçamento de partículas, essas bossas, "Ação Fantasmagórica à Distância" é bela, tocante, de extrair lágrimas. A faixa título do novo disco, "O Rigor e a Misericórdia", a próxima, tinha algo de Zé Ramalho. Lobão ainda revelou que tinha pensado em chamar o paraibano para cantar com ele e que já tinha tocado zabumba em sua banda. O tema, mais uma vez científico, aborta química/física quântica, é o mesmo abordado pelos holandeses do EPICA em seu recente "The Quantum Enigma", "o universo só existe quando olhamos para ele". A música também fala sobre dualidade. "Rigor para mim, misericórdia para meus inimigos". No clímax da canção, uma banda de apoio chega a fazer falta, mas isto não invalida este show, nem o seu formato, só atiça a curiosidade para ver como a música vai se parecer no disco.

Até aqui o foco do show não estava sobre os ocupantes do planalto. Lobão arrancou risos da plateia ao dizer que "não era de reclamar". E ele próprio disse ter dó de botar letra em música de protesto porque isso fazia com que ficassem datadas. Neste ponto, Lobão fez o que fez o rock em um de seus discos, errou. Infelizmente. Se "A Marcha dos Infames" tivesse sido composta a quinze anos, teria sido atual naquela época. Se ele ainda demorasse outros quinze para concebê-la, infelizmente, sabemos que ela ainda será atual. Não se pode defender o indefensável, mas as corjas de bandidos apenas alternam-se (ou desejam se alternar). Lula, FHC, Collor, Aécio, Dilma, Cunha, Calheiros... se cruzar com qualquer um deles na rua, aconselho a mudar de calçada. Ok, eu prometi não falar de política e já divago. Deixando minhas palavras de lado e voltando às do artista, ele contou ter descoberto que estava em uma "lista negra" do PT e ainda brincou dizendo que isto era "chiquérrimo". Uma senhora na plateia disse também estar. E a histriônica "A Marcha dos Infames" foi dedicada a todos os colegas dessa tal lista.

Mudando de assunto (felizmente), Lobão lembrou do ex-colega de VÍMANA, Lulu Santos. Se o ex-guitarrista daquele quinteto era o último romântico, o ex-baterista da banda que também alçara Ritchie ao estrelato, anunciou-se como o penúltimo. E o próximo bloco, de volta ao violão de 12 cordas, seria de canções "penultimamente românticas". "Vou te Levar", a primeira dessas penúltimas, cai muito bem no formato daquele show, mais desnudado ainda que os manjados acústicos da MTV. E em todas elas, como na romântica (mas canalha) "Por Tudo o Que For", percebe-se também o quanto o músico é também grande instrumentista. "Noite e Dia", que foi um sucesso na voz de Marina, foi antecedida de sua loooonga história (esqueci algum "o"?), que envolve perseguição policial em Florianópolis, uma playboy "colada", engenharia social e dois caras apaixonados pelas mesmas duas garotas. Foi um momento hilário ao qual eu jamais poderia fazer justiça. Se você quiser saber como a canção foi feita, aconselho que não perca o show da turnê caso ela passe por sua cidade. De quebra, também ficamos sabendo que "Me Chama" aproveitou um verso rejeitado originalmente em "Noite e Dia". É bom saber como cada música foi composta. Tudo isso vai tornando o show imperdível. E ao longo da apresentação, a iluminação ia criando climas de acordo com a canção. O som limpo também merece nota. E não foi diferente em "O Mistério", canção que teria sido do VÍMANA. "Sou um agente provocador da vilania alheia", confessa Lobão, falando novamente com o público, para depois, a pedido de um fã, Lobão ainda incluiu "Por Toda a Nossa Vontade", a canção que tinha feito mais rapidamente na vida, no set. E o músico continuou cantando, contando histórias e fazendo piadas (nem sempre engraçadas, claro) e até deixando o público escolher parte do repertório. "Essa Noite Não" teve piadinha inconveniente sobre aquele avião que o piloto jogou nos alpes. É. Pareceu uma das piadas do Daniel Tavares.

Lobão pediu permissão para homenagear novamente o amigo Cazuza ("Mal Nenhum"), mas não atendeu ao pedido de tocar "Revanche", apesar de considerá-la um grande hit. "Não sou vítima, sou predador. Por isso não gosto de tocá-la". "A Vida É Doce" foi consenso. E era mesmo uma das mais esperadas da noite.

O tesouro escondido "Alguma Coisa Qualquer" teria sido feita pra Cássia Eller, mas jamais foi gravada por ela. Na mistura de música espanhola com blues, Lobão se esgoela derramando, em suas palavras, "uma baixa-estima comovente". E outra que foi sucesso na voz de CAZUZA, "Vida Louca Vida", também foi outro momento comovente. O show já se aproximava das duas horas, mas, ninguém estava cansado. E em "Rádio Bla", o músico lembrou que era baterista e que precisava se movimentar. Se é difícil pra ele tocar sentado, comportado, imagine também o quanto é difícil para o público não levantar da cadeira e dançar. Ele também arrancou aplausos ao mudar, inteligentemente, a letra para atacar a presidente "que não fique comigo e deseje renunciar". Muitos batiam palmas até doer as mãos.

Na saída para o bis, alguns fãs tentaram subir no palco para pedir autógrafos nos livros do artista. "Calma, vou atender a todos vocês e não vou cobrar nenhum 700 reais", acalmou o artista o público, lembrando novamente daquela matéria que só falou de uma das modalidades de premiação do crowd-funding de seu disco. Sua versão agro-brega para o clássico dos BEATLES, "Help", que abriu a última parte do show, no entanto, vale mais pela interpretação (tão enérgica que ele chega a desplugar sem querer o violão e até acaba tendo que parar para tossir) que pela beleza. Fico com a original. Outra versão, de uma música própria agora, é "Dilma Bandida", paródia de "Vida Bandida". O problema não é o xingamento (alguém aqui já foi a um show dos Ratos de Porão...), nem a mudança na letra (...ou a um show do Nando Reis). Política à parte, se em "Rádio Bla" o artista joga inteligentemente com as palavras, a versão para "Vida Bandida" parece gratuita. Para muitos, foi o ponto alto do show, mas também fico com a original aqui. A situação assemelha-se a quando eu escrevi sobre um show de Roberto Carlos. Na ocasião eu disse que "Jesus Cristo" era fantástica, enquanto "Nossa Senhora" era de uma pobreza singular. Como naquele dia era preciso ver além da religião, aqui é necessário ver além da política. E são dois assuntos complicados. Podemos falar sobre futebol agora?

"Corações Psicodélicos" chegou para arrematar o show, que, pela empolgação do público, ainda aceitaria algumas. Quem esperava um comício saiu decepcionado, devia ter ido a algum outro lugar. Quem o julga pelo seu twitter (onde ele é mesmo um chato por mais que você concorde com o que ele fala), devia vê-lo no palco, o santuário do artista. O que tivemos foram duas horas de muita música boa, momentos impagáveis de comunhão artista/público (um dos mais importantes do Brasil) em um ambiente agradável e acolhedor. E, depois de um gole d´água, Lobão ainda recebeu, autografou itens, bateu papo, posou pra fotos com todos os que quiseram fazê-lo (uma extensa fila). Depois de duas horas cantando e tocando (e isso por dois, três noites seguidas), isto é um fato muito digno de menção. E viva o rock and roll. Valeu João Luiz.

Agradecimentos:
Monika Vieira e Juliana Bomfim, pela atenção e credenciamento.
Gandhi Guimarães, pelas fotos que ilustram esta matéria.

Set List

01. Os Vulneráveis
02. Assim Sangra A Mata
03. A Esperança É A Praia do Outro
04. Das Tripas Coração
05. Chorando no Campo
06. Ação Fantasmagórica à Distância
07. O Rigor e a Misericórdia
08. A Marcha dos Infames
09. Vou te Levar
10. Por Tudo o Que For
11. Noite e Dia
12. Me Chama
13. Por Toda a Nossa Vontade
14. Essa Noite Não
15. Mal Nenhum
16. A Vida É Doce
17. Alguma Coisa Qualquer
18. Rádio Bla
19. Help!
20. Dilma Bandida
21. Corações Psicodélicos


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