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Coberturas de shows

Lenine no Centro Cultural Dragão do Mar

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Publicada em 12, May, 2015 por Daniel Tavares


Conheci Lenine anos atrás, 2007 ou 2008, em sua Recife natal. O homem loiro, alto e magro, estava também no consulado americano tratando do visto de algum filho ou neto. Apesar do atendimento prioritário a ale concedido por tratar-se de figura pública, o homem ali não era o artista conhecido mundialmente. Era apenas um pai, avô, tratando de assuntos corriqueiros, como aquele senhor careca da fila do banco, aquele casal no consultório médico ou aquela senhora baixinha na fila do supermercado. Lenine, no guichê ao lado do meu, conversava alegre com as atendentes, falava sobre um show que faria na terra do Tio Sam (estava ali para tratar dos vistos de todos os que o acompanhavam), mas falava também sobre a educação dos filhos e netos e outros assuntos que eu, obviamente, não vou recordar. "Já criei meus filhos. Meu filho reclama comigo, mas, agora, como avô, meu papel é deseducar meus netos", confidenciou o engenheiro químico à moça que preenchia formulários com suas informações. Não trocamos mais que o "bom dia" educado de cavalheiros que se encontram numa fila, eu estava talvez mais apreensivo que ele pela resposta da autoridade estadunidense, mas ficou da observação daquele momento uma grande simpatia pela pessoa do Sr. Oswaldo Lenine Pimentel.

Anos depois, meu novo encontro com Lenine foi em seu show na Praça Verde do Centro Cultural Dragão do Mar, em 9 de maio de 2015, em Fortaleza. Você acompanha aqui no Musicão como foi esse show a partir de agora.

Lenine só sobe ao palco às 11 da noite, mas não chega sozinho para "Castanho", que abre o show e o novo disco, "Carbono". Lenine vem junto com Jr Tostoi na guitarra, Bruno Giorgi, seu filho, também na guitarra (mas às vezes no bandolim ou em cowbells), Guila empunhando o baixo (e por vezes um teclado). Na bateria, protegido pelo acrílico, Pantico Rocha foge do óbvio desde o início, encontrando-se sempre, entretanto, com o bom gosto. E, seguindo na mesma sequência do álbum, "O Impossível Vem Pra Ficar". Já é sabido desde a estreia da turnê que esta é a estrutura da apresentação: "Carbono" tocado em sua íntegra e na ordem,- intercalado por músicas pinçadas de um e outro álbum que o antecedeu.

Ao fundo do palco, repousa soberana a escultura que representa uma molécula de carbono. Ela, a banda e demais elementos dispostos no palco parecem mais espremidos que nas fotos da estreia da turnê, no Sesc Pinheiros, na capital paulista. O palco da Praça Verde é menor. E a área da praça em si é maior. O branco da escultura agora contrastam com o branco das colunas do Dragão do Mar. Carbono é adaptação. A iluminação é o sexto componente da banda e, embora nem sempre ilumine Tostoi, Pantico, Giorgi e Guila, conversa, dialoga com o show. Não há canhões disparando para todos os lados, nem pirotecnia, apenas sensibilidade. Intimidade. E as fotos que acompanham esta matéria, de autoria de um tal Daniel Tavares, não fazem um pingo de justiça à beleza do espetáculo.

"É muito bom, eu como pai, estar aqui mostrando o filho novo", declara o cantor, ambiguamente referindo-se ao novo álbum, mas também a Giorgi. O início do show agradou, claro, mas é "Na Pressão", do álbum de mesmo nome, que proporciona o primeiro momento singalong junto ao público.

Exatamente dois anos antes, no Estádio Castelão, a cidade da luz tinha recebido o maior astro vivo, Paul McCartney. Aqui não cabe nenhuma comparação além do paralelo que podemos fazer com o pernambucano e o moco de Liverpool. Ambos abusam da inventividade, da capacidade de buscar elementos comuns do tempo e da terra em que vivem, transformando tudo, criando conexões inéditas, dando forma e fluidez. Como o carbono.

Ivan Martins, colunista de Época, comparou Lenine a Kurt Cobain. Se não coube a comparação com Paul, tampouco cabe com o loiro grunge, de vida intensa e rápida. Cobain tinha a urgência de quem tinha vinte e poucos anos e muito poucos ainda pela frente. Lenine tem a paciência de quem está deseducando netos e tem ainda muito o que viver. E a química, cujo resultado é Lenine, só encontraria no Brasil, com elementos de todas as suas cinco regiões.

Lenine flerta com o rock nos riffs de "Martelo Bigorna", mas volta ao "quase-frevo" com "Cupim de Ferro", parceria com os conterrâneos da NAÇÃO ZUMBI. É aqui que mais requebra o "Kurt Cobain que requebra" e arranca palmas do público. E mesmo diante da impossibilidade de ter uns vinte músicos no palco, a banda não se limita. Em substituição à Orquestra Rumpilezz, "À Meia-Noite dos Tambores Silenciosos" ganha efeitos cromáticos, intervenções do bandolim tocado por Giorgi, solos curtos mas bem encaixados de Tostoi, transmutando-se numa versão que mereceria um registro mais cuidadoso que o das centenas de câmeras de celulares, empunhadas como se isqueiros fossem. A novíssima "À Meia Noite..." deveria estar em edições deluxe de "Carbono", como nos discos que são lançados no mercado japonês.

Ainda viajando livre por onde lhe der na telha, Lenine flerta com o drum and bass em "Meu Amanhã". O inusitado é que aqui Guila, o baixista, toma conta é do teclado à sua frente. E as guitarras (três novamente, Lenine, Giorgi e Tostoi) se distorcem novamente em "Do Ser Ao Pó", faixa que evoca o nome do álbum que a possui. E continuando o exercício de liberdade de qualquer amarra estilística, um pouco de forró (mas dos bons, ok?) está presente na "resposta" ao sambista Zeca Pagodinho. Lenine afirma seu protagonismo em "Quem Leva a Vida Sou Eu", que põe os cearenses pra dançar um pouco. Esta vem seguida da bela e nem um pouco simples "Simples Assim", momento meio mágico, meio espuma das ondas batendo nas pedras, melodia que tenta ser íntima, mas tem efeito maximizado pelo requinte da participação de Tostoi. Nada simples.

Só no palco (nem mesmo a escultura recebe os holofotes agora), Lenine, seu violão e o eco de sua voz criam, ou recriam, "O Universo Na Cabeça Do Alfinete". O show ainda está na metade, mas já valeu o ingresso.

"Todas as canções são como filhos meus. E todo pai quer mostrar o filho mais novo", revela Lenine, para explicar que teve que deixar muitos de "seus filhos" de fora do setlist. Ia enumerando um a um e ouvindo os "Aaaaaah" do público a cada um deles. "Leão do Norte" (Aaaaah), "A Ponte" (outro Aaaaah), "Hoje Eu Quero Sair Só" (e assim por diante), "Jack Soul Brasileiro", "Paciência". "Hoje...", pedida em um cartaz, e "Paciência" (o "Aaaaah" mais forte) ganharam a vez, mas o cantor quase nem teve que cantá-las. Ambas transformaram-se em duetos com os fortalezenses. E os holofotes, que durante todo o show pareceram ter vida própria e consciência, abandonam o palco e focam na multidão.

O show continua. Ainda há muitas canções feitas e ouvidas por quem tem extremo bom gosto no repertório fixo. "Quede Água" toca na ferida da falta d´água e aconselha que se aprenda com os nordestinos como conviver com a situação. Minutos mais tarde, o timbre teimoso (graças a Deus) do baixo de Guila conduziria "Magra". E depois de envergar, mas não quebrar, o público já recebe com gritos as primeiras notas na guitarra de Giorgi. Elas anunciavam "Se Não For Amor, Que Eu Cegue".

Lenine não é de gastar muitos os "t^is" e "d^is" de seu sotaque pernambucano entre uma música e outra. Prefere dominar o palco e a atenção da plateia com seu cantar e com as boas escolhas que faz dos sons que acompanham seus poemas musicados. E quem sabe é aqui que ele mais lembra o frontman de uma banda de rock, mas confidencia: "Estamos chegando ao fim. É muito prazeroso poder sentir o que eu sentia a muitos anos atrás e poder continuar fazendo o que eu faço". Grafite e diamante, dois produtos do mesmo carbono, duelam entre si na música que tem esse nome, antes da homenagem a Lampião, Curisco, Gonzaga, Jackson do Pandeiro no peso do rock "nordestinado" de "Candêeiro Encantado". O rock continua no jogo de palavras "Do It" até desembocar em "Undo", jam que ao invés de desfazer tudo, junta tudo o que foi feito até ali numa mistura improvável e imprevisível. "Tô como pai orgulhoso babando na cria", Lenine declara-se, despedindo-se e agradecendo feliz a cada um dos envolvidos na realização do show, sua banda, a Edem Produções, equipe técnica e ao público. "Mais um, mais um, mais um", grita a Praça Verde.

"Vocês viram como eu sou facinho. Vocês mal começaram e eu já tô aqui", brinca Lenine ao voltar rapidamente para o bis. É "Rede", que ainda trás um pouco de FAGNER para a terra que é dele. Lenine, Tostoi, Giorgi, Pantico e Guila voltam então para "Castanho" e temos tudo de novo. A estória se repete. Como na vida, filhos tornem-se pais. E depois tenham netos para deseducar. E depois morram para que seus netos tenham netos. E assim continuamente.

A produção do show, sob responsabilidade da Edem Produções, cuidadosa de detalhes, tanto no palco quanto no chão da praça, só pecou depois que o astro principal já tinha deixado o limelight. Davi Duarte, talento da terra, ao invés de abrir o show, aquecendo quem chegava para tomar conta da Praça Verde, acabou sendo escalado pra encerrar a festa. Só ficou ali quem já era fã de carteirinha do cantor cearense. E não é lucro pra nenhum artista fazer proselitismo musical para quem já o conhece. O atraso no início do show nem deveria ser mencionado, uma vez que o próprio público também só chegou bem depois das dez. Em todo o resto, os anfitriões foram impecáveis.

Agradecimentos:
Renato Bras, pela confiança e oportunidade.
Anna Calorina Braz, pela atenção e credenciamento.
Edem Produções, pela produção do show e credenciamento.
Fátima Tavares, pela companhia e apoio.


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